Todas iguais, todas…iguais

Costuma-se dizer que com o passar dos anos gostamos cada vez mais de nós. Mas se o corpo muda e o rosto envelhece, porque raio nos sentimos melhor? Porque nos sentimos mais seguras? Porque gostamos mais de nós aos 30 do que aos 20? Simplesmente porque aprendemos a respeitar-nos e a gostar da forma como somos. Aceitamos as nossas imperfeições e enfatizamos o que nos agrada.

A vaidade faz parte do ser humano ( até no reino animal está presente ) e não tem de ser mal vista. Com conta peso e medida é até um catalisador para que continuemos a tratar e a gostar de nós. Mas aqui entra uma qualidade que se está a perder. A aceitação. Num mundo onde cada vez mais podemos ser o que quisermos, a maior parte procura ser igual.

As redes sociais vieram ditar da homogeneização da aparência. Basta um scroll pelas contas de famosas/influencers e percebemos que todas querem ser iguais a…todas. É assustador. Não se consegue distinguir. Os lábios são XXL, as sobrancelhas imensas, a maquilhagem cópia e as poses idem aspas. Estamos a conhecer uma geração de narcisista, onde o principal objectivo de vida são os likes, os seguidores, o engagement.

Passamos minutos do dia a vasculhar a dos outros. Uma vida que a grande maioria das vezes não tem a verdade que vemos. Mas procuramos o quê? A vida dos outros? As experiências? E nós? E a nossa vida? E as nossas experiências? As nossas memórias?

Esta foto é brilhante e dispensa todas as minhas palavras:

Porque partilhamos a nossa vida? Porque procuramos likes? Porque todos gostamos de ser aceites. Todos queremos ser reconhecidos por algo. Por termos uma grande vida, por termos um grande carro, porque temos roupa espetacular, porque somos “perfeitos”. Mesmo sabendo que a maior parte é uma treta, continuamos a ver. Se gostamos pomos um like, caso contrário dá-lhe no scroll e que venha o próximo. Mas o que se passa connosco? É disto que realmente gostamos? De bocas que parecem um desentupidor, de sobrancelhas que parecem uma fita adesiva? Mamas que parecem rabos e rabos que parecem sofás de 3 lugares?

Tenho redes sociais por obrigação profissional. Obrigação. Comecei tarde, passava dias sem publicar e usava as redes para partilhar momentos profissionais e pessoais [estes últimos bastante comedidos]. Estive para apagar as contas várias vezes porque pura e simplesmente sou mais de viver do que mostrar que vivo e como vivo. E sempre fui assim. Pouco dada a shows e a centro das atenções, apesar da minha profissão. Pode não condizer uma coisa com a outra, mas é a realidade. Gosto do que faço, não necessariamente do que isso me traz.

Comecei a perceber o mundo paralelo que me escapava já tarde, quando escutei um conhecido ator a dizer “eh pá, não posso publicar já a foto porque a melhor hora não é agora.” Oi? Senti-me uma totó. Melhor hora? Como assim? Aquele episódio fez-me conhecer o mundo irrealista que dita as atrizes que vão entrar nas novelas, as modelos que vão fazer campanhas, as figuras públicas que são patrocinadas. Trabalhos que se conquistam à custa de seguidores, de likes e partilhas. Tudo uma farsa. Uma irrealidade. Uma plasticidade. Uma demonstração de uma suposta aprovação social.

Antes preocupávamos-nos pela forma como as pessoas nos viam no sentido moral. Hoje em dia a preocupação é a aparência. Como serão as mulheres do futuro que nos dias de hoje são adolescentes?

Sem identidade. Viver sem o iluminador de rosto será o grande desafio para quem se olha ao espelho e procura tudo menos ela própria. Porque não sabe ser ela própria.

E nós, sem nos apercebermos, fomentamos tudo isto. Fica a dica – passemos a seguir nas RS pessoas ou projetos que efetivamente vão de encontro ao que nos faz feliz. Pode ser que assim as pessoas em todo o mundo se lembrem que a vida não é uma conta de Instagram. Acontece num plano real onde podemos ser quem quisermos. Inclusive nós próprios.

Vossa,

JT

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