Porquê? 

Porquê?

Porque foi isto acontecer, desta forma, neste contexto, com tanta violência? O incêndio de Pedrógão Grande fez-nos parar. Por instante, estou segura que toda a gente, cada um de nós, sentiu um pouco da dor de quem perdeu. De quem perdeu gente amada, casa, parte de uma vida. Confesso que chorei pelos que perderam a vida, na circunstância triste que nos leva a estar na hora errada no sítio errado. Qualquer um de nós poderia ter estado ali, cercado pelas chamas, num desespero que não quero sequer imaginar. Rezei para que tivessem desmaiado pela inalação do fumo e que assim não tenham sofrido tanto. E no meio desta tristeza que achava eu, não estaria sequer próxima do meu meio, recebo a notícia triste. Uma jovem família que perdeu a vida era próxima de um amigo meu. Recusei-me a ouvir a história, a saber quem eram. Tudo isto é difícil demais. 

Esta enorme tragédia ceifou demasiadas vidas para passar sem uma reflexão dura e exaustiva. Este domingo de manhã, apresentei um pequeno programa especial e tive de me controlar nas questões e engolir em seco noutras tantas. O entrevistado estava ali apenas para dar a sua opinião, enquanto comandante da Protecção Civil de Coimbra, mas sentia que deveria ser a voz de todos aqueles que só tinham perguntas a fazer e respostas para ouvir, numa tentativa de amenizar a dor. Como se mantém aberta uma estrada que se revelou fatal para tantas pessoas? , como o incêndio ganhou tanta dimensão?, como é que as telecomunicações falharam tanto?, como é que o 112 disse a algumas pessoas que “aquela” zona não era prioritária? Porque falha, ano após ano, o ordenamento do território? Como se permite a reflorestação com eucaliptos, plantas não autóctones e facilmente inflamáveis? Esta árvore é originária da Austrália e na proporção, Portugal tem mais eucaliptos que a Austrália… 

Esta calamidade tem também servido para levantar o tapete e mostrar o “lixo” de muitos lobbies. É absolutamente inconcebível ter chegado a este ponto para haver uma abertura de diálogo séria e eficazmente transformadora. Mas estou segura que desta vez ela acontecerá. Foi grave demais. 

Depois temos o jornalismo mórbido, com um abuso quase profano dos cadáveres tapados na mata, como pano de fundo para um telejornal. 

E mais uma vez, agradecemos e louvamos os bombeiros heróis. Os mesmos que ganham menos de 2€ por hora. Menos de 2€ por hora. 

A minha revolta não é de agora, mas nestas circunstâncias consome-me ainda mais. Os bombeiros arriscam a própria vida pelos outros. Por qualquer um. Assim de repente, não estou a ver ação mais estóica. Não deveriam ser eles muito bem remunerados, ter grandes condições de trabalho e regalias sociais? Para mim, isto é mais do que evidente. Que a tragédia de Pedrogão Grande também permita abertura ao diálogo, para que quem nos socorre sempre, seja tratado como merece.

Os meu sentimentos a quem perdeu entes queridos. Tudo isto é mesmo muito triste. 


Vossa,

JT

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